março/2026

REVISTA LUMOS

oitava edição

vida de adulto - o frágil equilíbrio entre a responsabilidade e a autenticidade

bem-vinda à oitava edição da revista LUMOS. os conteúdos da revista serão lançados durante o mês, favorite nossa página para não perder nada!

[01 mar]

matéria de capa

por Letícia Bergantini em 02 de março _ 2026

[01 mar]

que atire a primeira pedra a professora que nunca foi assombrada pelo fantasma do “deveria”.

 

eu deveria ter mais dinheiro guardado. eu deveria fazer atividade física. eu deveria me alimentar melhor. eu deveria criar conteúdo. eu deveria criar mais materiais para meus alunos. eu deveria seguir o que planejei. eu deveria descansar mais. eu deveria diminuir meu tempo de tela. eu deveria ler mais. eu deveria estudar mais. eu deveria tanta coisa…

 

afogadas no mar da frustração, não conseguimos separar o joio do trigo. somos incapazes de analisar a realidade concreta e entramos em uma espiral que alimenta a culpa e não nos aponta para soluções.

 

quais “deverias” são expectativas?

quais “deverias” são frutos de comparação?

quais “deverias” são desejos?

quais “deverias” são necessidades?

 

vamos juntas buscar estas respostas.

 

será que sou adulta o suficiente?

entre millennials, a sensação de “não ser adulto” é generalizada. isso ocorre porque crescemos com uma ideia de adulto em nosso imaginário que não se verifica na nossa realidade. sim, bem na nossa vez. há dez, quinze, ou vinte anos atrás, não imaginávamos que chegaríamos aqui (na idade que temos hoje) sem a perspectiva de adquirir um imóvel, comprar um carro ou realizar aquela viagem dos sonhos – algo que parecia lógico na promessa neoliberal que nos foi feita.

 

essa era a expectativa de uma geração: estudar, trabalhar & ser recompensado com estabilidade e segurança. nos esforçamos, sim. inclusive, mais uns do que outros – para fazer os devidos recortes de gênero, classe & raça – mas a promessa não se cumpriu, por fatores econômicos que estão fora do nosso campo de controle.

 

nesse cenário, arriscar (e empreender!) para ter a possibilidade de uma vida melhor parece fazer mais sentido que ter uma carteira assinada (às vezes isso é verdade, às vezes não – e esse é um tema para outro momento). e, respaldados pelo nosso descontentamento com uma realidade muito mais instável do que nosso trabalho, unicamente, é capaz de mudar, se proliferam gurus que mostram suas vidas – tão adultas! – apresentadas como fruto do esforço individual.

 

nos tornamos presas fáceis. e confundimos o “deveria” da fantasia que nos foi construída através de muito discurso neoliberal ao longo da vida com o “deveria” dos charlatões. o primeiro é uma expectativa frustrada, sobre a qual você tem pouco controle. o segundo apresenta uma solução individual – e transfere para você a responsabilidade por não estar vivendo a vida que você esperou que viveria.

 

dado o contexto, parece improdutivo atrelar a noção de ser adulto a este checklist que esperávamos se concretizar nesta altura do campeonato. é preciso ressignificar este conceito para nossa realidade.*

 

deveria ou “deveria”?

na nossa lista de “deverias”, há sim, apontamentos do que significa ser adulto na nossa concepção. apontamentos que indicam o que nós entendemos como, por exemplo, ser responsável – uma característica adulta.

 

estes apontamentos são importantes para vislumbrarmos ações que queremos de fato implementar. por exemplo: guardar dinheiro para ter uma reserva de emergência. ou, ainda, fazer atividade física para ser tão independente quanto possível na velhice. o que não significa que “deveríamos” ter uma quantia específica de dinheiro já investida (com a melhor porcentagem de retorno sobre o CDI) ou que “deveríamos” acordar às 5h para treinar para uma maratona (não antes de beber um café superfaturado).

 

precisamos entender – sim, bem na nossa vez – como sermos responsáveis (e, portanto, adultas) à nossa maneira. caso contrário, nós seguiremos nos ensurdecendo de vozes que não são as nossas. os charlatões seguirão nos entregando novos checklists sobre “o que significa ser adulto” – desconsiderando, ao mesmo tempo, o contexto sócio-econômico (que mudou a noção de adulto nos nossos tempos) & nossos desejos e realidades individuais.

 

te deixamos, então, com as perguntas:

o que significa, para você, ser adulta?

como você pode ser adulta sem desrespeitar quem você é?

em quais momentos vale a pena flexibilizar em nome da responsabilidade?

em quais momentos flexibilizar em nome da responsabilidade pode ser, na verdade, irresponsável – na sua realidade?

 

dica: passar um tempo fora das redes sociais (e fazer uma bela limpa em quem você segue) pode te ajudar a encontrar suas respostas ;​)

 

*ressignificar para nossa realidade não significa abandonar os questionamentos críticos sobre o que “deveríamos” estar vivendo enquanto adultos. esta resposta é política, e é responsabilidade do Estado promover as condições para que ela se verifique na materialidade. por isso, a abordagem adotada aqui não pretende ignorar este papel, mas voltar o olhar para o que nós, enquanto sujeitos, podemos fazer para minimizar os danos – sem ignorá-los e sem nos responsabilizarmos por eles.

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